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A arte moderna em Campinas a partir de Mário Bueno

22 Novembro 2019 Autor:   Ananda Mendes Lima

 Ananda Mendes Lima

 

As seguintes sugestões pedagógicas têm como princípio demonstrar as conexões dos movimentos artísticos campineiros e o cenário das artes nacional e internacional, assim como as especificidades do regionalismo dos artistas de Campinas, especialmente por meio das obras e produções escritas de Mário Bueno. O objetivo central é ir além das referências europeias na modernidade, incluindo para isso o cenário artístico municipal. A proposta é pertinente por valorizar as produções locais e demonstrar sua importância e conexões com o que recebe maior destaque, além de demonstrar outras possibilidades para o estudo das artes.

Mário Bueno (1916-2001) foi um artista plástico campineiro. Trabalhando inicialmente nas ferrovias, Bueno passou a perseguir o seu desejo de se tornar artista em 1943, aos 27 anos de idade1. De formação autodidata, as produções do artista refletem o meio no qual se insere, demonstrando no início de seus trabalhos, por meio das temáticas e uso das cores, as influências do meio urbano, em especial das ferrovias, passando às temáticas abstratas com foco na técnica e não no tema. Foi um dos fundadores e membro do Grupo Vanguarda, movimento que, de 1958 a 1966, reuniu diversos artistas campineiros sob o pretexto de fazer arte para além do academicismo em vigor até então na cidade, mantendo contato com as inovações artísticas que ocorriam ao redor do globo.

A sugestão pedagógica envolve a reflexão acerca das especificidades do movimento modernista em Campinas, através do grupo Vanguarda e seus artistas. Utilizaremos os manifestos do Grupo Vanguarda e Ruptura, assim como produções textuais de Mário Bueno sobre arte e obras de artistas, refletindo sobre a forma como esse novo posicionamento em relação ao fazer artístico se desenvolvia na cidade e suas relações com o nacional e internacional. Entre as fontes documentais escolhidas, todas provenientes do conjunto documental Mário Bueno, estão: uma listagem dos artistas que influenciam suas obras, reflexões sobre o cubismo, pequenas análises sobre a produção de alguns artistas, considerações sobre o Salão de Arte Contemporânea de Campinas e um texto onde discorre sobre a obra de Thomaz Perina, colega artista que também participou do grupo Vanguarda. O objetivo é observar algumas possíveis influências na obra de Bueno, assim como refletir sobre a inserção da arte campineira em um contexto nacional e internacional de desenvolvimento artístico.

 

1 - Mário Bueno e suas influências

Propõe-se ao educador uma exposição sobre quem foi Mário Bueno, onde viveu, como começou a carreira artística e o tipo de arte que desenvolve. Introduzir as vanguardas artísticas de forma geral, em especial os movimentos que serão abordados ao longo da atividade, como o cubismo. Apontar alguns artistas, aspectos e reivindicações feitas por tais grupos. Exposição sobre a arte moderna e as vanguardas, assim como sobre os artistas que serão abordados ao longo da atividade.

A presente sugestão coloca lado a lado obras de alguns artistas de diferentes expressões da arte moderna, nacionais e internacionais, como forma de demonstrar a abrangência das influências de Mário Bueno. É necessário, contudo, atentar-se ao que está disponível no documento escrito e a região e inserção temporal dos artistas a serem escolhidos.

 

2 - Contexto da cidade - Grupo Vanguarda

Apresentar o contexto da cidade de Campinas e as relações estabelecidas com as artes. Entre os aspectos que podem ser abordados estão: a) as transformações estruturais que ocorreram entre as décadas de 1950 e 1960; b) a forma como as artes eram restritas à elite campineira; c) maneira como esta valorizava o academicismo nas manifestações artísticas. Introduzir nesta discussão o Grupo Vanguarda, apontando a forma como sua relação se estabeleceu em torno de uma alternativa ao academicismo, buscando uma atualização das artes e do mercado artístico campineiro e seus artistas locais, em diálogo com o cenário artístico nacional e internacional.

 

3 - Análise de documentos

Essa etapa consiste na utilização do que foi apresentado e discutido até então na análise e comparação dos movimentos artísticos, baseados nos escritos de Mário Bueno e dos manifestos. É importante abordar a questão do documento e da sua intenção ao ser escrito, sendo parte de um contexto histórico. Para nortear a discussão, podem ser utilizadas questões básicas e, aos poucos aprofundar, como: “O que é o documento?”; “Quem e quando o produziu?”; “O que ele diz?”; “Como é possível relacionar ao contexto histórico?” etc. Para as obras de arte: “O que a obra representa?”; “Quais as técnicas utilizadas?”; “Como são os aspectos formais?” (cor, composição, etc). Dessa forma, ao aprofundar a análise, será também possível estabelecer as conexões que relacionem os movimentos, suas semelhanças e divergências, e contextualizem a arte em Campinas e a forma como se dá em relação aos movimentos nacionais e internacionais de arte moderna.

Após as discussões sobre cada documento a ser trabalhado, inicia-se a atividade de comparação entre as obras de Mário Bueno e dos outros artistas abordados. Espera-se que seja possível associar algumas características formais e técnicas sobre as produções. É importante evidenciar as particularidades, demonstrando não se tratar de uma cópia, mas sim de uma referência artística. Nesse momento entra a questão da relação entre a arte campineira e o cenário artístico nacional e internacional, atentando para as especificidades regionais da arte.

 

4 - Atividade

Por fim, como conclusão do roteiro, a sugestão de atividade é uma forma de solidificar o que foi desenvolvido. Algumas propostas são:

  • Produção textual, abordando as relações desenvolvidas entre as obras, o contexto da arte modernista em Campinas, as particularidades da arte de Mário Bueno etc. 
  • Desenvolvimento de produção artística: sugerir aos alunos que escolham artistas de sua preferência e, a partir de seus referenciais, desenvolvam suas próprias produções. Uma sugestão é apresentar o projeto e suas influências e a forma como as desenvolveram.
  • Pesquisar sobre um ou mais dos artistas sobre os quais Mário Bueno se refere no Documento 3, e relacionar à crítica do autor e também ao que o aluno pensa, após a pesquisa e discussão.
  • Buscar informações sobre os movimentos artísticos em outras regiões do Brasil no mesmo período e apontar semelhanças e diferenças.

 

 

5 - Indicações de obras

Paul Klee: Mulher com roupa típica, 1940. Cola colorida sobre papel cartão, 48 x 31,3cm. <http://ofermentorevista.com.br/2019/06/03/os-varios-tons-de-paul-klee/> Acesso em 20/10/2019.

Pablo Picasso: Guitar, 1913. Jornal recortado e colado, papel de parede, papel, tinta, giz, carvão vegetal e lápis em papel colorido, 66.4 x 49.6 cm. Fonte: <https://www.moma.org/collection/works/38359> Acesso em 20/10/2019.

Kumi Sugai: Kuro, 1957. Óleo sobre tela, 80 x 58cm. Fonte: <https://www.takaishiigallery.com/en/archives/16672/> Acesso em 20/10/2019.

José Pancetti: Arraial do Cabo, 1948. Óleo sobre tela, 45.50 x 65 cm. Fonte: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra15453/arraial-do-cabo> Acesso em 20/10/2019.

Mário Bueno: Manifesto, 1970. Óleo sobre papel colado sobre tela, 130 x 110 cm. Fonte: <https://mam.org.br/acervo/279-bueno-mario/> Acesso em 20/10/2019

Mário Bueno: L. T. 38, 1997, óleo sobre tela, 100.00 cm x 85.00 cm. Fonte: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra7446/l-t-83> Acesso em 20/10/2019

 

6 - Documentos

Documento 1: Produção textual de Mário Bueno, contendo lista de artistas prediletos.

  • Atenção à pluralidade das influências na obra do artista
  • Artistas de diversos lugares e diversas técnicas

 

 

Apontamentos. Campinas, SP. Entre 1960 e 1980. Conjunto Mário Bueno - Centro de Memória-Unicamp

 

Documento 2: Manifesto do Grupo Vanguarda.

  • Atenção à diagramação
  • Diálogos que estabelece com o documento 3
  • Reivindicações feitas no texto

 

PREFEITURA MUNICIPAL DE CAMPINAS. Grupo Vanguarda de artes plásticas de Campinas 1858-1966. Registro Histórico através de resenha jornalística e catálogos. Manifesto: grupo vanguarda de Campinas. Campinas, SP: Gráfica e Editora Cunha Mattos Ltda., 1981. p 7. Conjunto Mário Bueno - Centro de Memória-Unicamp

 

Documento 3: Manifesto do Grupo Ruptura.

  • Atenção à diagramação
  • Diálogos que estabelece com o documento 2
  • Reivindicações feitas no texto

 

Waldemar Cordeiro e Luís Sacilotto. Manifesto do Grupo Ruptura. São Paulo, SP. The Adolpho Leirner Collection of Brazilian Constructive Art Related - Museum of Fine Arts, Houston, EUA. Disponível em https://www.mfah.org/art/detail/60078

 

Documento 4: Produção textual de Mário Bueno, contendo considerações sobre o cubismo.

  • Forma sintética de exposição
  • Atenção à possíveis relações que estabelecem com a produção artística de Mário Bueno.

 

 

Autonomia do Cubismo. Campinas, SP. Conjunto Mário Bueno - Centro de Memória-Unicamp

 

Documento 5: Produção textual de Mário Bueno, contendo lista de artistas, entre eles Cecília Pupo, Francisco Biojone, Mário Bueno, Thomaz Perina e Vanderlei Zalochi, e comentários sobre suas produções.

  • Os artistas apontados são, em grande parte, contemporâneos a Bueno, sendo possível verificar, por meio de suas obras e técnicas, as influências e o meio em que circulava o artista.
  • Observar a forma como é desenvolvida a breve análise sobre as produções dos artistas.

 

 

Aspecto Crítico. Campinas, SP. Conjunto Mário Bueno - Centro de Memória-Unicamp

 

Documento 6: Produção textual de Mário Bueno, abordando a produção artística de Thomaz Perina.

  • Observar a relação de proximidade entre os artistas e possíveis reflexões em suas obras

 

 

Tomás Perina: um testemunho. Campinas, SP. 1978. Conjunto Mário Bueno - Centro de Memória-Unicamp

 

Documento 7: Produção escrita de Mário Bueno, abordando a importância do Salão de Arte Contemporânea de Campinas.

  • Importância do Salão em nível nacional
  • Importância também em nível regional, sendo um meio de contato com produções de outros locais e consequente enriquecimento cultural da cidade.
  • Diálogo com os movimentos artísticos e possível influência ao movimento modernista da cidade de Campinas.

 

 

A importância do Salão Oficial de Campinas. Campinas, SP. 3 set 1981. Conjunto Mário Bueno - Centro de Memória-Unicamp

 

Notas

  1. DUARTE, Juliana, COUTO, Maria de Fátima Morethy, Mário Bueno nas décadas de 50 e 70. p. 2

 

Referências

BATTISTONI FILHO, Duílio. Pequena história da arte. Campinas, SP: Papirus, 1984.

CAMPOS, Crispim Antonio. Um olhar sobre o grupo vanguarda: uma trajetória de luta, paixão e trabalho. 1996. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Campinas, SP. Disponível em:

http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/252326. Acesso em: 29 set. 2019.

COUTO, Maria de Fátima Morethy. Entre territórios: a arte de vanguarda em Campinas (1950-1970) e sua repercussão no cenário artístico nacional. 19º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas “Entre Territórios”. 20 a 25 set. 2010, Cachoeira/BA.

COUTO, Maria de Fátima Morethy. Pensar a arte de vanguarda em Campinas. p. 181-194.

DUARTE, Juliana, COUTO, Maria de Fátima Morethy., Mário Bueno nas décadas de 50 e 70. Disponível em:

<https://docplayer.com.br/8290480-Mario-bueno-nas-decadas-de-50-a-70.html>

 

Este texto foi produzido como fruto das atividades de Estágio Supervisionado do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Unicamp, ministrada pelo Prof. Dr. Aldair Carlos Rodrigues, e realizadas sob supervisão dos técnicos do Centro de Memória-Unicamp.

 

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