Print this page

A fotografia como prática educativa

22 Novembro 2019 Autor:   Melissa Gabrielle Santos Cabral

 

Melissa Gabrielle Santos Cabral 

É um tanto quanto popularizada a ideia de que a fotografia seria a fiel representante da realidade em que foi tirada. Entretanto, é preciso apresentar e discutir com os alunos que aquela imagem também mostra muito do olhar e da intencionalidade do fotógrafo e de como ele entende aquela determinada realidade. Assim, no intento de trabalhar com este tipo de documento, como primeira aproximação com os estudantes, propõe-se sugerir aos alunos que eles escolham algum espaço da escola e o descrevam. Com isso, será possível demonstrar que, apesar das similaridades, aspectos diferentes desse espaço podem ser ressaltados por pessoas diferentes, mostrando as múltiplas visões existentes sobre um mesmo objeto.

Ao trabalhar com a fotografia em sala de aula, devemos nos atentar para as condições de produção destas imagens, ou seja, para a história por trás da foto: quem a tirou, como, porquê, quem encomendou o trabalho, para qual objetivo foi utilizada etc. Essas atividades que estimulem reflexões são importantes para que os estudantes compreendam que a fotografia não representa fielmente a realidade, mas sim traz olhares que se modificam ao longo do tempo, do espaço e da própria percepção do autor. Obter esse senso crítico é de extrema importância para que eles consigam trabalhar com qualquer tipo de fonte primária que lhes forem apresentadas.

Para exemplificar o que foi dito, escolhemos algumas fotografias do conjunto documental da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo que retratam a relação campo e cidade e seus trabalhadores.

 

 

  1. R. Quaas. Campos de Seleção. Americana, SP. Entre 1907 e 1910. Conjunto Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo - Centro de Memória-Unicamp.

 

  1. R. Quaas. Chegando Terra e Carpindo. Americana, SP. Entre 1907 e 1910. Conjunto Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo - Centro de Memória-Unicamp.

 

 

Obras para collocação do monumento commemorativo do Centenário. São Paulo, SP. ca. 1921. Conjunto Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo - Centro de Memória-Unicamp.

 

Canalisação do Ipiranga. São Paulo, SP. ca. 1921. Conjunto Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo - Centro de Memória-Unicamp.

 

Primeiramente, é interessante analisar foto a foto e pedir para que os alunos as descrevam. Como roteiro, aconselha-se que sejam observadas características formais, constitutivas da imagem: cenários e paisagens, pessoas, vestimentas, objetos, hierarquias e animais presentes. É importante anotar as impressões gerais para ir trabalhando com isso ao longo da aula.

Após realizar este balanço geral, pode-se partir para uma análise do sentido do documento iconográfico. Entre os caminhos, é possível questionar como os estudantes acham que aquelas pessoas viviam. Desta forma, o educador pode suscitar uma discussão sobre as diferenciações entre o trabalho no campo e na cidade. É de extrema relevância entender a especialização do trabalho e como isso impactava no cotidiano dos indivíduos, mostrando aos alunos, a partir das fotos, os diferentes meios do trabalho agrícola bem como o tipo de maquinário diferenciado que se utilizava nos centros urbanos para a construção de grandes obras.

Em um terceiro momento, é interessante adentrar ao mundo da pesquisa com fontes iconográficas, fazendo mais uma atividade de reflexão com os alunos sobre o preço da fotografia antigamente, como eram as máquinas fotográficas, qual classe social podia ser considerada fotógrafa, por exemplo. Assim, por meio desses aspectos, será possível pensar sobre como eram realizadas essas representações, entendendo os sentidos por trás da câmera e as intenções e objetivos claros do fotógrafo e daqueles que encomendavam a foto ao escolher um tipo de retrato em detrimento de outros.

Acompanhando o raciocínio e as fontes aqui apresentadas, é necessário levar mais informações - quando for possível - sobre os fotógrafos e quem as encomendou. No caso das fotos escolhidas, temos somente a autoria de Otto Rudolf Quaas, mas trabalhar principalmente com a questão do que era a Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo, o contexto histórico envolvido na produção dessas imagens e também quais os objetivos do organismo governamental ao encomendar e guardar essas fotografias.

Para um trabalho efetivo com fontes históricas, é provável que se faça mais perguntas aos documentos do que é possível responder. O objetivo principal da atividade é trabalhar questões que tragam mais dúvidas do que respostas, de modo a contribuir para a construção de um pensamento crítico ao longo dos anos escolares.


Este texto foi produzido como fruto das atividades de Estágio Supervisionado do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Unicamp, ministrada pelo Prof. Dr. Aldair Carlos Rodrigues, e realizadas sob supervisão dos técnicos do Centro de Memória-Unicamp.

 

 

We use cookies to improve our website. By continuing to use this website, you are giving consent to cookies being used. Cookie policy. I accept cookies from this site. Agree